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Um produtor de espumante da Bairrada que sonha tornar a Quinta dos Abibes passeáveis

No ano passado, Francisco Batel-Marques fazia títulos de jornais. Com uma carreira na docência universitária há quase 40 anos, na Faculdade de Farmácia, o professor de Coimbra fora escolhido para coordenar o braço português no projeto de monitorização da segurança das vacinas contra a covid-19. Mas nem por isso deixou de lado o projeto que o move por paixão desde adolescência e no qual ganhou tanta ou mais relevância do que a obtida na profissão a que se dedica desde que se doutorou em Ciências Farmacêuticas na especialidade de Farmácia Clínica, na Welsh School of Pharmacy, em Cardiff. E se em ambos os mundos há transformações químicas à mistura, a que tem lugar dentro dele quando a Bairrada lhe borbulha nas veias suplanta qualquer outra vontade. É no vinho que produz há quase duas décadas na sua Quinta dos Abibes que tem o coração

Sentamo-nos à mesa do Choupana Café, em plena avenida da República, com cafés, água e o cheiro dos croissants acabados de sair do forno a fazer crescer água na boca. O sorriso aberto faz-lhe covinhas no rosto e o tratamento familiar condiz com o calor dos gestos que lhe temperam a conversa, sempre a fugir para a Quinta dos Abibes, onde realizou o sonho que foi alimentando desde que era pouco mais que uma criança. As aulas de farmácia e todo esse seu eu que lhe gastou mais anos passa para segundo plano quando o tema são os espumantes e a história que a eles juntou Francisco

Não é enólogo, mas é um apaixonado convicto e não tenta disfarçar. Filho da Bairrada, lembra-se desde que se recorda de ser gente de passar dias de liberdade pela quinta da família Batel-Marques – que ainda mantém como era no tempo dos avós. Ali já se fazia vinho, mas “não era de qualidade, era para consumo próprio, vindo das vinhas que faziam a bordadura dos terrenos, nos pátios com latadas que me enchem a memória”, conta. O solo mais arenoso produzia ali um vinho pouco alcoólico e de baixa aptidão, mas recorda o sabor desses tempos com carinho. Depois, o quente da sua casa foi esfriando, mas a ligação à Bairrada manteve-se, alimentada pela ideiazinha de fazer bom espumante em terras que havia de descobrir serem ideais

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No ano passado, Francisco Batel-Marques fazia títulos de jornais. Com uma carreira na docência universitária há quase 40 anos, na Faculdade de Farmácia, o professor de Coimbra fora escolhido para coordenar o braço português no projeto de monitorização da segurança das vacinas contra a covid-19. Mas nem por isso deixou de lado o projeto que o move por paixão desde adolescência e no qual ganhou tanta ou mais relevância do que a obtida na profissão a que se dedica desde que se doutorou em Ciências Farmacêuticas na especialidade de Farmácia Clínica, na Welsh School of Pharmacy, em Cardiff. E se em ambos os mundos há transformações químicas à mistura, a que tem lugar dentro dele quando a Bairrada lhe borbulha nas veias suplanta qualquer outra vontade. É no vinho que produz há quase duas décadas na sua Quinta dos Abibes que tem o coração

Sentamo-nos à mesa do Choupana Café, em plena avenida da República, com cafés, água e o cheiro dos croissants acabados de sair do forno a fazer crescer água na boca. O sorriso aberto faz-lhe covinhas no rosto e o tratamento familiar condiz com o calor dos gestos que lhe temperam a conversa, sempre a fugir para a Quinta dos Abibes, onde realizou o sonho que foi alimentando desde que era pouco mais que uma criança. As aulas de farmácia e todo esse seu eu que lhe gastou mais anos passa para segundo plano quando o tema são os espumantes e a história que a eles juntou Francisco

Não é enólogo, mas é um apaixonado convicto e não tenta disfarçar. Filho da Bairrada, lembra-se desde que se recorda de ser gente de passar dias de liberdade pela quinta da família Batel-Marques – que ainda mantém como era no tempo dos avós. Ali já se fazia vinho, mas “não era de qualidade, era para consumo próprio, vindo das vinhas que faziam a bordadura dos terrenos, nos pátios com latadas que me enchem a memória”, conta. O solo mais arenoso produzia ali um vinho pouco alcoólico e de baixa aptidão, mas recorda o sabor desses tempos com carinho. Depois, o quente da sua casa foi esfriando, mas a ligação à Bairrada manteve-se, alimentada pela ideiazinha de fazer bom espumante em terras que havia de descobrir serem ideais

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Subscrever “Crescer na Bairrada foi muito bom, era uma vila boa… que se fez uma cidade não tão boa”, diz, mais para ele próprio do que para mim, antes de lembrar a última palavra dos Lusíadas, “inveja”, por contraste à sua postura: “Eu adoro ver as pessoas crescer, ganhar dimensão”. Depois, encolhe os ombros e regressa à minha pergunta para explicar que a licenciatura em Farmácia aconteceu “porque gostava de saúde e porque tinha oportunidade de estudar”. Mas é no vinho que se encontra. “Não é só o vinho, é a videira; é um ser que nasce, cresce, vive e morre cada ano e isso é incrível. É um ser vivo que acompanhamos, que tem doenças, fungos, requer cuidados e atenção.”

Se a Farmácia se chegou a ele, ao vinho foi Francisco que o escolheu. Pacientemente, foi-se mantendo a par de hectares emparcelados para venda numa região de muito minifúndio, conseguindo-os enfim e dando vida à Quinta dos Abibes em 10 hectares. Depois veio o mais difícil. A ideia germinava nele desde a adolescência, progredindo, sedimentando-se, até se materializar num belo espumante da Bairrada. “Para fazer o vinho, pus-me nos pés do consumidor e imaginei o que gostaria de saborear. Foi o ponto de partida para construir estes vinhos.” Depois foi preciso escolher as castas para o perfil que queria, fazer análises exaustivas aos solos, “mantear a terra” (virá-la e deixá-la exposta ao sol para esterilizar), dar corpo a “uma obra de engenharia brutal” para drenar os terrenos que, fruto do abandono, estavam empapados da água que escorria das terras contíguas. Ignorou todos – e foram muitos – os que lhe disseram que aquele não era o local ideia. “Dei antes ouvidos aos mais velhos da região, que sabiam que ali se fizera vinhos fantásticos.”

E a sabedoria popular revelou-se certa. No terreno argilo-calcário, as videiras de castas distintas foram-se enraizando , cada uma no seu talhão: arinto, touriga nacional, cabernet sauvignon, sauvignon blanc e baga. Cada uma delas é trabalhada em separado, vinificada, estagiada a solo e apenas na reta final se misturam para fazer os melhores néctares

Nos primeiros anos, Francisco teve de os fazer à distância: “A propriedade tinha uma casa e uns anexos que davam direito a construir, mas a licença demorou sete anos a chegar”, conta, relatando o desespero desses tempos em que teve de alugar uma adega a 2 quilómetros dos Abibes e desperdiçava boa parte da uva, entre a que ficava esmagada pelo peso das restantes no fundo do trator e a de cima, que queimava ao sol . Hoje tem nos Abibes três edifícios: o social, onde estagia o vinho em barricas, a adega e o armazém de atividade agrícola. Mas o sonho maior “de tornar a quinta passeável” ainda está por cumprir. Lá iremos

O que pode melhorar A construção da Quinta dos Abibes arrancou a 27 janeiro 2015 e a primeira colheita foi cumprida logo em setembro de 2017. Dependendo dos anos – os vinhos de topo só se produzem quando a qualidade é superior, limitando-se a cerca de 8 mil garrafas em anos selecionados -, produz à volta de 30 mil garrafas por época e a intenção era virar-se já para fora, internacionalizar a empresa e os espumantes da sua Bairrada. A covid trocou-lhe as voltas e pôs Francisco Batel-Marques a pensar no que corre mal no negócio. “Um dos erros do setor, até na exportação, é as casas quererem fazer tudo sozinhas.”

Por isso morreram as grandes cooperativas da região e cada produtor gasta fortunas em equipamento pouco usado e que mais rentabilidade daria se partilhado por vários – “uma prensa custa mais de 30 mil euros e trabalha 200 horas por ano”, exemplifica. E para vender lá fora, é preciso escala, massa crítica. Que muitos a sós não conseguem atingir. Para contornar essas dificuldades, planeou já fazê-lo em “acoplagem a outra grande empresa, da qual somos complementares”. Qual, ainda não pode revelar. Mas uma coisa sabe: mesmo nas vendas para fora, quer mais do que o mercado da saudade, apontando forte a países anglo-saxónicos, como os EUA e o Canadá

O futuro que Francisco traçou Identifica outras dificuldades do negócio – sobretudo custos do atual contexto: o preço da energia, o despovoamento do país – “a pirâmide etária é assustadora” – e a dívida. “As empresas não aguentam isto. E tem de se acabar de uma vez com a via sacra que uma empresa tem de percorrer para obter uma simples licença, por exemplo”, aponta. Explica que no vinho não há elasticidade: “Se o preço sobe, o consumidor passa para outra coisa. Mas no espumante, por exemplo, só as caricas já aumentaram 30% a 40% – subida que não podemos refletir no consumidor, ainda para mais quando ele já paga o IVA de 23%, porque se considera o espumante um produto de luxo.”

Identifica ainda uma necessidade, não, uma prioridade absoluta: a necessidade de investir em I&D. “Nenhum setor progride sem investigação e desenvolvimento, mas não há em Portugal nenhum centro de investigação no vinho. O setor precisa de investir nisso, tem de se criar centros públicos que façam evoluir o setor.” Os recursos humanos não são um problema maior, garante: tem quatro pessoas em full time a cuidar das videiras e nas épocas em que é preciso desfolhar, vindimar ou podar, contrata mão-de-obra especializada na região, tendo assim garantida a qualidade e saber dos recursos

Casado e pai de dois filhos na casa dos 30 anos, não carrega neles a sombra de terem de assumir aquela que é a sua paixão. Não que esteja perto de a largar – “ainda hei de conseguir fazer umas coisas”. Como o quê? Pergunto-lhe já quase a terminar o encontro. “Gostava que a Quinta dos Abibes fosse passeável”, dispara imediatamente. Depois explica a palavra “que não existe”: “que fosse um local onde as pessoas quisessem ir dar um passeio, passar um bom dia, passear, desfrutar em contacto com a natureza, ter uma refeição simples e acompanhar a atividade. Gostava que a Quinta dos Abibes fosse um destino aprazível.”

Quando o seu tempo ali terminar, até já sabe que rumo quer dar ao projeto. “Já sei a vida futura dos Abibes. Sei, mas não digo!” Ri-se, mas não diz mesmo. Teremos de esperar para ver – quem sabe enquanto passeamos pela Bairrada, depois de um piquenique na Quinta de Francisco

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